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O chefe do executivo cearense está sendo crucificado na grande mídia nacional por ter viajado para Europa e ter levado a sogra na sua comitiva. Este assunto deveria ter sido encerrado com o pedido de desculpas já realizado, por ter incluído um familiar na viagem.
O mais grave é que o motivo principal da viagem, a captação de empreendimentos de porte para o turismo cearense, foi colocado de lado e não é citado como positivo. O grande perigo é misturar o assunto a um jogo político sórdido, que visa principalmente atingir ao governador e ao seu irmão Ciro Gomes, envolvendo disputas eleitorais bem visíveis. O setor do turismo, principalmente o que será beneficiado com a geração de empregos no próprio Ceará e com a futura entrada de um fluxo maior de turistas estrangeiros, deveria sair de uma posição de imobilismo e reagir.
A reação deve ser fruto do bom senso e da disposição de separar o joio do trigo. O Ceará se beneficia do turismo pelo fato de estar muito próximo da Europa, a menos de 6 horas de vôo, o que torna a região extremamente atrativa para os investimentos internacionais que já estão ocorrendo. São oito empreendimentos portugueses e um espanhol, que resultam em investimentos superiores a R$ 2,2 bilhões.
Só o Play Mansa (capital espanhol) ocupará uma área de 300 hectares, com 1,7 km de praia e investimentos de R$ 620 milhões. Na carona deste complexo, outros grupos espanhóis estão interessados neste cenário. A ida do governador do Ceará à Feira de Turismo de Madri é mais do que justificada só pelo empreendimento existente. É bom lembrar que na semana em que Cid Gomes, ao lado do seu secretário de Turismo Bismarck Maia estiveram na Espanha, o Brasil já pulava o Carnaval. Enquanto governantes de outros estados faziam maratonas de fotos e poses na Avenida, indo ao Sambódromo do Rio, e se deliciavam do descanso momesco nas praias brasileiras, o governador do Ceará estava fazendo o corpo a corpo na Feira de Madri, um dos maiores eventos do mundo e em contato com grupos espanhóis interessados em seguir o exemplo do Play Mansa e investir no turismo do estado. “O Governador Cid Gomes foi uma das autoridades mais requisitadas no estande do Brasil na Fitur e manteve contatos extremamente importantes”, lembra o presidente da Federação Brasileira de Conventions e Visitors Bureaux, João Luís Moreira.
No estande do Grupo Marsans, o maior do turismo espanhol, o governador foi recebido pelo empresário Ignácio Pascual, vice-presidente da companhia aérea espanhola Air Comet, que entre outras coisas é dona da Aerolíneas Argentinas. Além de acertar a operação semanal entre Fortaleza e Madri, a empresa deseja ligar a capital cearense a Buenos Aires e investir em unidades hoteleiras no Estado.
Investimentos como este são facilitados quando o empresário estrangeiro sente o empenho e o apoio dos governos regionais e o corpo a corpo realizado pelo governador do Ceará é o sinal mais claro do apoio e da segurança que pode definir o sucesso ou não da captação de um empreendimento ou de uma ligação aérea.
Uma agenda como a da Fitur e de outras duas escalas na Europa, com o objetivo igual de captar empreendimentos, justificam uma viagem. Concordar na crucificação pública do governador só porque ele viajou em um jato executivo e deu uma carona para a sogra – que não alteraria em nada o custo do fretamento e que faria companhia à primeira-dama do Estado, é varrer para debaixo do tapete todos os resultados produtivos de um chefe do executivo, que aceitou se transformar em um caixeiro viajante, para captar empreendimentos e gerar empregos para o seu Estado, como o próprio presidente Lula realiza no exterior, tentando atrair investimentos para o País.
Quando o presidente comprou o Airbus 319, a oposição crucificou, mas só os negócios que ele gerou ao ganhar uma mobilidade de viagem já pagou milhares de vezes o valor do avião. No caso do Ceará, o governador alugou de uma empresa local um avião executivo, algo semelhante ao que fazem empresários e executivos modernos, devendo se registrar a proximidade da Europa com Fortaleza, - uma ida a Buenos Aires é a mesma distância do que uma ida a Madri.
Ou o Brasil pensa de forma moderna, ou estaremos fadados ao subdesenvolvimento, principalmente o Nordeste, que precisa se recuperar do atraso econômico em relação à região sudeste, caso contrário ficará sempre dividido em vários brasis, o dos ricos e o dos que não merecem crescer.
Se o governador de São Paulo, José Serra, fizesse uma viagem de captação de negócios na Europa, ou como faz quase todos os meses o governador Sérgio Cabral, do Rio, a imprensa não iria reclamar. O pecado de Cid Gomes é de ser o governador de um estado nordestino e que encontrou na Europa a solução de investimentos e geração de empregos, que os empresários do Rio e São Paulo não souberam aproveitar. Se o pecado foi levar a sogra, ele já foi amenizado com o pedido de desculpas públicas. Em um país onde os escândalos sexuais e as denúncias de orgia dividem o noticiário econômico, político e policial, um dirigente público virar motivo de piada por ter dado uma demonstração que preserva a família é demonstrar que a nossa mídia fomenta um questionamento que nada contribui para a sociedade. O mais grave é que os fatos concretos da viagem e os negócios gerados são propositadamente omitidos. Pelo menos, o trade do turismo do Ceará deveria ter reagido com coragem e hipotecado uma solidariedade pública ao seu governante pelos resultados gerados na Fitur e não deixar que um patrulhamento como este iniba futuras ações deste e de outros governantes de estados brasileiros. Cláudio Magnavita é presidente nacional da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo, membro do Conselho Nacional de Turismo e diretor do Jornal de Turismo.
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